No dia em que escrevo este artigo, surge a notícia de que a Ucrânia aceitará um acordo imposto pelos Estados Unidos e penso que eu não usei termos errados. Aliás desde cedo Trump disse ao que vinha e como vinha. Depois de quatro anos de conflito, onde os discursos renegavam qualquer cedência às pretensões da Rússia, formada uma espécie de frente unida da Europa, poderá soar estranho a muitos de nós existir a cedência de território ucraniano, mas no fundo era a solução, pragmática e inevitável.
Quem avaliar os efeitos secundários que este acordo terá em alguns valores humanistas que são a base das sociedades evoluídas, dirá que estamos num momento muito delicado da evolução da humanidade. No entanto a questão poderá ser mesmo essa, como se avalia hoje o que são sociedades evoluídas? Qual o aspeto que devemos privilegiar nessa avaliação? A condição financeira? O acesso à saúde? A liberdade democrática? Utilizamos o IDH: Índice de Desenvolvimento Humano?
Eis que surge a grande questão que a humanidade enfrenta: a falta de noção coletiva que se vai instalando nos indivíduos e o surgimento de uma lógica individualista dos movimentos coletivos. Eu corro o risco de estar a ser limitado e enviesado na minha análise, mas quando comparo algumas das questões que hoje movem a sociedade com as causas de décadas passadas, algo se perdeu pelo caminho…
Mas não perdendo o foco deste texto, caso se verifique o acordo nos termos conhecidos, a Europa como bloco, fica neste momento numa posição que se torna vergonhosa e incómoda para todos os governantes europeus. A União Europeia mostrou que de facto é uma flor com raízes na Comunidade Económica Europeia. No panorama mundial se este acordo se concretizar nos termos conhecidos fica uma imagem de que somos um bloco económico que aos poucos se vai tornando pouco relevante, politicamente nem sequer somos um bloco e militarmente não posso avaliar porque nem existimos! A União Europeia mostrou ser uma manta de retalhos, unida por regras e regulamentos que não permitem posições firmes, ficando sujeitas aos momentos políticos dos países que a compõem.
Não haverá um caminho único, mas espero que a Ucrânia sirva como ponto de partida para se iniciar uma reflexão ao nível europeu sobre o que realmente querem os europeus da União Europeia. Estamos dispostos a abdicar de parte da nossa soberania e caminhar numa lógica federalista? Devemos apenas cingir a uma união económica? O certo é que mantermos esta manta de retalhos onde se discute a distribuição de fundos e mercados, com demasiadas micro-questões, muito pouco sobre o futuro coletivo do projeto europeu só nos conduz a tornar-nos irrelevantes no panorama mundial.
Olhando à história da humanidade, todos os grandes impérios caíram criando períodos de grandes vazios humanistas, cabe a nós olhar para a humanidade, como os homens e mulheres que a compõem e saber respeita-nos a todos na nossa realidade sabendo que enquanto seres humanos somos capazes das maiores descobertas e das maiores atrocidades.


