Não é todos os dias que dois clubes do Vale do Sousa acolhem, em simultâneo, quatro atletas norte-americanos. Ainda menos quando a coincidência acontece em modalidades diferentes e através de projetos sem qualquer ligação entre si.
Nesta época, o Clube Aquático Pacense (CAP), em Paços de Ferreira, conta com os gémeos californianos Jack e Jake Yendes, de 19 anos, reforços da equipa de polo aquático. Já o Clube de Basquetebol de Penafiel (CBP) tem no plantel os norte-americanos Nate Shafer e Adam Brazil, de 28 e 25 anos, oriundos dos estados da Virgínia e Carolina do Norte, respetivamente.
Embora tenham percursos distintos, os quatro partilham algumas características. Todos chegaram a Portugal à procura de novas experiências desportivas e pessoais, todos encontraram nos clubes uma forte componente de integração e todos destacam a forma como foram recebidos pelas equipas e pela comunidade local.
No caso do basquetebol, Nate Shafer regressa para uma segunda temporada em Penafiel, depois de uma experiência que define como marcante. Foi precisamente ele quem recomendou Adam Brazil ao clube, depois de ambos se terem conhecido em estágios internacionais realizados em Itália e nos Países Baixos. Para os dois atletas, o ambiente familiar encontrado no CBP foi decisivo para a adaptação.
Já no polo aquático, os irmãos Jack e Jake Yendes deixaram a Califórnia para conhecer a realidade europeia da modalidade. Com mais de uma década de prática da modalidade, procuravam um contexto diferente daquele que conheciam nos Estados Unidos e encontraram em Portugal e no Clube Aquático Pacense uma oportunidade para crescer desportivamente e viver uma experiência internacional.
Entre as dificuldades naturais da adaptação, como a barreira linguística e a distância da família, os quatro atletas sublinham a hospitalidade dos portugueses, a qualidade de vida e a forte ligação criada com colegas e treinadores.
Mais do que uma curiosidade estatística, a presença destes quatro norte-americanos mostra a capacidade de atração que os clubes da região conseguem exercer além-fronteiras, afirmando-se como espaços de crescimento desportivo e humano para atletas vindos de realidades muito diferentes.
Nate e Adam: dois americanos, uma amizade e uma segunda casa encontrada em Penafiel
O basquetebol trouxe-os a Portugal, mas aquilo que encontraram em Penafiel acabou por ir muito além do desporto. Aos 25 anos, os norte-americanos Nate Shafer, da Virgínia, e Adam Brazil, da Carolina do Norte, representam o Clube de Basquetebol de Penafiel (CBP), partilhando não apenas o balneário, mas também uma amizade construída através da modalidade e reforçada agora numa aventura comum longe de casa.
Para Nate, esta já é uma história de regresso. Depois de uma primeira temporada em Penafiel, aceitou sem hesitar voltar a vestir a camisola do clube. A decisão foi influenciada não apenas pelo projeto desportivo, mas sobretudo pelas ligações humanas que construiu durante a época passada.
O percurso até chegar a Portugal começou nos Estados Unidos, onde jogou durante o ensino secundário e no basquetebol universitário. Após concluir os estudos, decidiu prolongar a carreira e mudou-se para a Irlanda, primeiro através de um programa que conciliava um mestrado com competição federada e, posteriormente, para outros dois anos no país.
Quando procurou um novo desafio, tinha algumas ideias claras: queria conhecer uma nova cultura, viver num país diferente e sair de uma realidade onde a língua inglesa fosse dominante. O contacto com Portugal surgiu através da rede de amigos ligada ao basquetebol e acabou por conduzi-lo a Penafiel.
“O treinador enviou-me uma mensagem a perguntar se queria jogar no CBP. Aceitei com entusiasmo. Quando me perguntaram se queria voltar para uma segunda época, a resposta foi muito fácil”, conta.
A experiência portuguesa superou rapidamente as expectativas. A receção dos colegas, a integração na cidade e a sensação de comunidade deixaram uma marca profunda no jogador norte-americano.
“Encontrei aqui uma nova família”, resume.
A distância em relação aos pais e à irmã foi inicialmente um dos maiores desafios, mas Nate acredita que a experiência internacional adquirida na Irlanda o preparou para enfrentar essa realidade. Mais difícil foi sentir-se limitado na comunicação quotidiana. “Estou habituado a comunicar facilmente com as pessoas. Quando não conseguimos falar a mesma língua, isso torna-se desafiante. Aos poucos fui aprendendo português e criando relações.”
Apesar das dificuldades, guarda especial carinho pela forma como os penafidelenses o acolheram. Fala das pessoas que encontra regularmente nas ruas, dos vizinhos e das pequenas conversas que foi conseguindo desenvolver com o passar do tempo. “Percebi rapidamente que as pessoas aqui gostam de conhecer quem faz parte da comunidade.”
Foi precisamente por valorizar essa experiência que, quando o CBP procurou um novo reforço norte-americano para esta temporada, o primeiro nome sugerido foi o de Adam Brazil.
Os dois atletas tinham-se conhecido em experiências internacionais realizadas em Itália e nos Países Baixos, onde jogaram durante curtos períodos integrados em projetos destinados a promover jogadores junto de clubes europeus.
Para Adam, a proposta surgiu praticamente sem necessidade de reflexão. “Quando o Nate me falou do clube e da experiência que tinha vivido aqui, bastaram poucos minutos para perceber que queria aceitar.”
Esta é a primeira temporada como profissional do jogador da Carolina do Norte e também a concretização de um objetivo antigo. “Desde muito novo que sonhava jogar profissionalmente e viver uma experiência internacional.”
Apesar de estar em Penafiel há apenas algumas semanas, fala já com entusiasmo da integração no grupo, da tranquilidade do estilo de vida português e da hospitalidade encontrada tanto no clube como na cidade.
A presença de Nate facilitou os primeiros dias, ajudando-o a conhecer o ambiente do clube, os espaços da cidade e até os restaurantes preferidos dos colegas de equipa.
“Tornou tudo muito mais fácil. Mostrou-me a cidade, apresentou-me as pessoas e ajudou-me a perceber melhor a cultura.”
Em comum, os dois destacam o espírito de grupo existente no balneário. Ambos admitem que, em equipas desportivas, a chegada de jogadores estrangeiros pode por vezes gerar alguma resistência, mas garantem que nunca sentiram esse tipo de ambiente em Penafiel. Pelo contrário. Encontraram um grupo onde os interesses individuais ficam atrás dos objetivos coletivos. Essa é, de resto, uma das razões pelas quais Nate admite ter dificuldade em imaginar-se a jogar noutro local. “Vou sempre decidir um ano de cada vez. Mas se o CBP me quiser cá, seria muito difícil dizer que não.”
Entre treinos, jogos e descobertas gastronómicas, os dois norte-americanos continuam a construir uma ligação cada vez mais forte ao clube e à cidade. Uma experiência que começou através do basquetebol, mas que rapidamente se transformou numa história de amizade, integração e pertença.
Da Califórnia para Paços de Ferreira: os gémeos que vieram aprender um novo polo aquático
Durante mais de uma década, os irmãos gémeos Jack e Jake Yendes cresceram dentro das piscinas da Califórnia, uma das principais referências do polo aquático nos Estados Unidos. Hoje, aos 19 anos, vivem a milhares de quilómetros de casa e representam o Clube Aquático Pacense (CAP), numa experiência que consideram simultaneamente desportiva, académica e cultural.
A ligação ao polo aquático começou ainda na infância e nunca mais parou. Ambos passaram por vários clubes californianos, num estado onde a modalidade possui uma dimensão muito superior à existente no resto do país.
Depois de anos a competir em solo norte-americano, surgiu a vontade de experimentar o contexto europeu. Os dois jovens começaram a contactar clubes de diferentes países, procurando uma oportunidade que lhes permitisse continuar a evoluir enquanto atletas.
Portugal acabou por surgir naturalmente entre as hipóteses. “Tínhamos várias possibilidades, mas Portugal pareceu-nos um dos locais mais interessantes para viver. Queríamos uma experiência desportiva, mas também uma experiência de vida”, explica Jack.
Até à chegada ao Vale do Sousa, nenhum dos dois conhecia o país para além das referências recolhidas à distância. O impacto inicial foi suficientemente forte para ultrapassar as expectativas.
Os irmãos encontraram diferenças evidentes dentro e fora da água. No plano competitivo, descrevem um polo aquático mais físico e estratégico do que aquele a que estavam habituados na Califórnia. “Nos Estados Unidos o jogo é normalmente mais rápido. Aqui existe mais contacto físico, maior intensidade tática e maior valorização da força coletiva.”
Mas foi fora da piscina que surgiram algumas das maiores surpresas. A simpatia das pessoas, o ritmo de vida mais tranquilo e o ambiente de proximidade deixaram uma impressão imediata. “Nos Estados Unidos existe uma sensação permanente de urgência. Aqui as pessoas parecem ter mais tempo para conversar, para conviver e para desfrutar dos momentos”, observa Jack.
Os dois jovens destacam particularmente aquilo que consideram ser a hospitalidade portuguesa. “Mesmo quando não conseguimos comunicar porque não falamos português e algumas pessoas não falam inglês, sentimos sempre simpatia e vontade de ajudar”, acrescenta Jake.
A integração no CAP também contribuiu para uma adaptação rápida. Os colegas de equipa tornaram-se o principal círculo de apoio e amizade desde a chegada. “Eram praticamente as únicas pessoas que conhecíamos aqui. Receberam-nos muito bem desde o primeiro dia.”
A barreira linguística continua a ser um dos maiores desafios, mas ambos garantem que estão empenhados em aprender. Depois de apenas algumas semanas em Portugal, já dominam algumas expressões básicas e acreditam que a aprendizagem vai acelerar ao longo da temporada.
A experiência não significa, porém, uma pausa nos estudos. Tanto Jack como Jake pretendem ingressar na universidade, seguindo percursos ligados às Ciências da Computação. Jake planeia ainda complementar a formação com estudos em Linguística.
O objetivo passa por conciliar carreira académica e prática desportiva, mantendo uma ligação prolongada a Portugal nos próximos anos.
Para já, querem ajudar o CAP a alcançar melhores resultados, aprofundar amizades e continuar a descobrir um país que, admitem, os surpreendeu pela positiva. “Esperamos criar aqui uma segunda casa e voltar muitas vezes no futuro”, resume Jake.
Para dois jovens que atravessaram o Atlântico em busca de uma experiência diferente, a aventura portuguesa está apenas a começar, mas tudo indica que a ligação a Paços de Ferreira poderá durar muito além desta temporada.
