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Festa para uns, pesadelo para outros: Debate sobre fim dos rebentamentos em fogo de artifício

FogoArtificio FIN

Portugal é, por definição, um país de romarias. Do Minho ao Algarve, não há santo que se preze que não seja anunciado por uma salva de morteiros. É a nossa identidade, dizem uns. É a nossa alegria, dizem outros. Mas a aprovação recente de leis que proíbem fogos de artifício ruidosos em vários cantos do mundo obriga-nos a confrontar uma verdade desconfortável: em Portugal, a “festa” de muitos ainda se alimenta do pânico de tantos outros.

Durante décadas, aceitámos o estrondo seco do morteiro como um mal necessário, uma vírgula sonora no meio da celebração. No entanto, o que para a maioria é um sinal de festa, para uma criança com Perturbação do Espetro do Autismo é uma agressão física violenta. Para um idoso com demência, é o regresso traumático a memórias de violência. Para os animais, de companhia ou selvagens, é um estado de terror absoluto que, não raramente, termina em fuga, ferimentos ou morte por paragem cardiorrespiratória.

A Ditadura do “Sempre foi assim”

O argumento da tradição é o refúgio habitual de quem se recusa a evoluir. Mas a tradição não é uma peça de museu imutável; é um organismo vivo que deve refletir os valores da sociedade que a pratica. Se hoje já não aceitamos (ou aceitamos cada vez menos) espetáculos que envolvam o sofrimento gratuito de seres vivos em arenas, por que razão continuamos a tolerar que o céu das nossas cidades se transforme numa zona de guerra acústica?

A tecnologia já nos oferece o “fogo-de-artifício silencioso” — um espetáculo de luz, cor e coreografia visual que preserva a magia sem a violência do impacto sonoro. A resistência em adotar estas alternativas não é técnica, nem sequer económica; é cultural. É a resistência de quem coloca o seu prazer momentâneo acima da integridade física e psicológica do próximo.

Um Apelo ao Silêncio Respeitoso

Não se trata de proibir a celebração. Trata-se de a civilizar. É urgente que Portugal deixe de legislar “a retalho”, conforme a sensibilidade de cada autarquia, e assuma uma postura nacional clara: o direito ao sossego e à saúde deve prevalecer sobre o direito ao ruído.

As nossas autarquias, principais promotoras das festas populares, têm o dever moral de dar o exemplo. Contratar espetáculos de baixo ruído ou de drones não é “matar a tradição”, é atualizá-la para um século XXI que se pretende mais inclusivo e empático.

Enquanto continuarmos a ignorar o sofrimento silencioso que o nosso barulho provoca, continuaremos a ser uma sociedade que confunde festa com agressão. Está na hora de ouvirmos o silêncio. Ele tem muito mais para nos ensinar sobre civilidade do que qualquer morteiro de 150 decibéis.

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