No dia em que a Organização Mundial da Saúde (OMS) celebra a ciência e a colaboração sob o lema “Juntos pela Saúde. Ao lado da Ciência”, a Plataforma Saúde em Diálogo denuncia listas de espera recorde e defende a implementação urgente de um registo de saúde único para salvar o sistema público em Portugal.
O Dia Mundial da Saúde é hoje assinalado em Portugal com um misto de celebração institucional e alertas críticos sobre a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Enquanto o Governo e as Forças Armadas reforçam a importância do investimento no conhecimento e no cuidado, as associações de doentes pedem uma reforma estrutural que coloque o cidadão no centro do sistema.
O apelo à Ciência e ao Cuidado
Sob o mote “Juntos pela Saúde. Ao lado da Ciência”, a República Portuguesa sublinhou hoje a necessidade de unir inovação e colaboração para proteger a saúde pública. Citando o Diretor-Geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, a mensagem oficial destaca que a ciência é a “ferramenta mais poderosa para vivermos mais e melhor”, focando-se na aceleração da investigação e no desenvolvimento de políticas para as gerações futuras.
Também a Força Aérea Portuguesa se associou à data, homenageando os seus profissionais de saúde. Em comunicado, o ramo recordou que a prontidão militar começa no cuidado, afirmando que “proteger começa muito antes de voar”.
As “fragilidades profundas” do SNS
Contrastando com o tom celebrativo, a Plataforma Saúde em Diálogo — que representa 86 associações de doentes e consumidores — aproveitou a data para lançar um alerta severo. Segundo a organização, o SNS enfrenta uma pressão sem precedentes: no final de 2025, mais de 1,3 milhões de utentes aguardavam resposta, com cerca de 1,08 milhões em espera para consultas de especialidade e 264 mil para cirurgias.
Jaime Melancia, presidente da plataforma, aponta a “rutura de medicamentos nos hospitais” como um dos problemas mais graves, com impacto direto na vida dos doentes crónicos. A organização denuncia ainda que Portugal demora mais tempo do que outros países europeus a aceder à inovação terapêutica, o que compromete a equidade no tratamento.
A solução: Um Registo Único e Interoperável
A prioridade absoluta defendida pela Plataforma é a criação de um registo único de saúde, plenamente interoperável entre os cuidados primários, hospitais, setor social e farmácias.
“A inexistência de um sistema integrado continua a gerar fragmentação da informação e repetição de exames”, alerta a plataforma, sublinhando que um banco de dados unificado permitiria:
-
Poupança de custos e recursos;
-
Maior segurança clínica;
-
Redução de atrasos na tomada de decisão médica.
Desigualdades no acesso
Outro ponto crítico levantado é a falha na implementação do programa de dispensa de medicação hospitalar em farmácias comunitárias. Atualmente, apenas 1.380 utentes beneficiam deste regime, quando o potencial estimado é de 200 mil. Para Jaime Melancia, a dispensa de proximidade “não é uma comodidade, é uma questão de justiça social e territorial”, evitando deslocações longas e penosas que penalizam a vida pessoal e profissional dos doentes.
O Dia Mundial da Saúde encerra, assim, com um desafio claro para os decisores políticos: transformar a visão de “futuro baseada na ciência” numa realidade imediata que elimine as iniquidades no acesso à saúde em todo o território nacional.
