O índice de capacidade financeira em Portugal atingiu o valor mais baixo dos últimos oito anos (41,6). O agravamento das despesas com saúde, educação e mobilidade está a empurrar cada vez mais agregados para uma situação crítica, com a Guarda e o Algarve a registarem os piores indicadores do Continente.
Os resultados do mais recente Barómetro da DECO PROteste, divulgados esta semana, traçam um cenário negro para a economia das famílias portuguesas. Apesar da descida da inflação e das taxas de juro no crédito à habitação em 2025, o alívio não chegou às carteiras. Pelo contrário: 17% dos portugueses vivem agora em situação de “sufoco financeiro”, o valor mais alto registado desde o início do estudo, em 2018.
Regionalismo: Onde o aperto é maior
A análise geográfica revela que a crise não afeta o país de forma uniforme. Se o Norte é, atualmente, a zona onde se vive com maior desafogo relativo, o interior e o sul enfrentam dificuldades severas.
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No Interior: O distrito da Guarda destaca-se pela negativa, sendo a região do Continente com a maior percentagem de famílias em dificuldade financeira (24%).
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No Sul: O Algarve sofreu um tombo significativo no índice, caindo de 47,9 para 40,3, com quase um quarto das famílias em condições muito complicadas.
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Nas Ilhas: A situação mais grave do país vive-se nos Açores, onde o número de famílias em situação crítica disparou para os 31%.
Apenas o distrito de Castelo Branco conseguiu contrariar a tendência de descida generalizada do índice de capacidade financeira.
Saúde e Automóvel: O “Top” das preocupações
O estudo, que contou com mais de 5500 respostas, identifica as áreas que mais pesam no orçamento. Surpreendentemente, não é apenas a habitação que tira o sono aos portugueses. Os gastos com o automóvel são apontados por 51% das famílias como problemáticos. Seguem-se as despesas com as férias (50%), a saúde oral (46%) e a compra de proteínas básicas (carne e peixe), que já representa um desafio para 40% dos agregados.
O fim da Classe Média?
Os dados da DECO revelam um fenómeno de polarização social crescente. Enquanto o número de famílias em sufoco aumentou, também o grupo das que pagam despesas sem dificuldade atingiu o seu máximo (36%). Este fosso indica que a classe média está a desaparecer: ou as famílias conseguem manter o seu conforto, ou resvalam rapidamente para a pobreza.
Os agregados monoparentais continuam a ser o grupo mais vulnerável, com 31% a admitir grandes dificuldades em fechar o mês com as contas em dia.
Sobre o Barómetro
Realizado entre novembro de 2025 e janeiro de 2026, o estudo da DECO PROteste avalia seis áreas vitais: alimentação, educação, habitação, lazer, mobilidade e saúde. Numa escala de 0 a 100, Portugal obteve apenas 41,6 pontos, ficando atrás de Espanha, Itália e Bélgica, sendo o único dos quatro países analisados a regredir na sua saúde financeira.
