Durante alguns anos acompanhei de forma curiosa o caso da Farfetch: era tudo aquilo que contrariava o que ouvi e aprendi com os livros do tempo do meu pai. O sucesso desses homens assentou em muito trabalho, pouca publicidade, investimento do pouco que tinham e reinvestimentos do lucro que geravam. Ainda me lembro de frases como “os Bancos comem todos os dias na nossa mesa”, “sócios… nem com a mulher” e a mítica “o segredo é a alma do negócio”. Ora, pensando no caso dos modernos unicórnios eles são tudo menos isso. Nascem de uma ideia que é escalada o mais rápido possível, de preferência nem se criam raízes, porque eles foram criados para voar. Na prática, isto só é possível com entradas significativas e muito rápidas de capital e assim o segredo do negócio já não é a alma, mas a publicidade. O negócio não tem espaço ou tempo para crescer por si, mas procura rondas de investimento constante. O lado caricato desta lógica é que os bancos já não comem na mesa dos empreendedores: são os empreendedores que comem na mesa dos investidores e muitas vezes todos gritam por algo mais no prato.
A teoria económica tem o seu espaço de estudo para certos fenómenos que são classificados como Monopólios e Oligopólios, ambos surgem como atividades económicas onde, seja pelo volume necessário de capital para entrar, pela legislação a cumprir ou pelo baixo custo operacional que alguns operadores conseguem atingir, a concorrência é eliminada e daí resultam margens de lucro anormais provocadas pela distorção do mercado. Isto foi comummente aceite como prejudicial para o bem-estar social e durante anos combatido pelas instituições públicas, pela legislação e pela própria sociedade. No entanto, hoje, é discurso corrente que ganhar escala é o caminho para a prosperidade. Acreditamos e abrimos caminho para que se criem enormes grupos empresariais, damos benefícios fiscais que incentivam as empresas a fixarem-se “cá”, ou pelo menos a sua sede fiscal e, sem sentido crítico, classificamos tudo como melhoria das condições de vida da sociedade moderna.
É nesta parte da repartição dos benefícios econômicos, benefícios fiscais, obrigações fiscais e direitos sociais que, para mim, este discurso se torna mais grave, pois a evolução da consciência social levou-nos a um estado onde não só promovemos a acumulação do capital, como ainda defendemos a baixa de impostos e o corte de subsídios sociais.
Sem querer entrar em discussões ideológicas, sinto que é obrigação de todos os cidadãos terem consciência da sociedade onde vivem, de tomarem decisões de forma informada e ponderada. Nesse sentido será sensato discutir corte de impostos numa fase em que a economia prospera e os indicadores parecem mostrar bons resultados? Faz sentido apregoar que é através de uma baixa de impostos que melhoramos a vida do cidadão comum ou do empresário comum? Cortar as prestações sociais melhora a vida dos cidadãos? Aumentar o PIB português melhora a minha vida ou a vossa vida?
O exemplo recorrente nestas discussões é a Irlanda e o seu famoso PIB per capita que a coloca orgulhosamente entre os países mais ricos da Europa. Pelos últimos dados disponíveis o Salário Médio Bruto Irlandês é o dobro do Português, mas o que nunca é abordado é que o PIB per Capita da Irlanda é 4 vezes maior! Em boa verdade a grande discussão não está só na produção de riqueza, há que incluir a questão da distribuição e nenhuma sociedade será equilibrada sem o seu rendimento também o ser.
Tudo isto leva-me a questionar se o meu país está no caminho certo, quando ter 16.000€ ou um carro em seu nome impede um cidadão de obter apoios sociais. Talvez estejamos a olhar para o lado errado do problema, porque obrigar alguém a ficar sem nada para receber um pouco, talvez crie um problema maior que ajudar quem necessita no momento adequado e em que patamar de valor se coloca o valor da vida e dignidade do homem.

