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Susana Oliveira lança primeiro livro e reverte receitas para a Associação para o Desenvolvimento da Portela

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A autora Susana Oliveira

A penafidelense Susana Oliveira vai lançar o seu primeiro livro, intitulado “Pessoas que cuidam de Pessoas”, numa iniciativa solidária cujas receitas revertem integralmente para a Associação para o Desenvolvimento da Portela (ADP), instituição que fundou há 18 anos.

A apresentação da obra está marcada para o próximo 7 de novembro, às 17 horas, no Auditório do Museu Municipal de Penafiel, e pretende ser um momento de reflexão sobre o associativismo, a participação cívica e o papel das comunidades na resposta às necessidades sociais.

Segundo a autora, o livro nasceu da vontade de dar visibilidade ao trabalho muitas vezes invisível desenvolvido pelas associações e pelos voluntários. “Aquilo que se vê de uma associação é apenas uma parte do que ela faz. Há muito trabalho discreto, preocupações e decisões difíceis que ficam por conhecer”, afirma.

A obra surge também num contexto particularmente difícil para a associação. Susana Oliveira refere que o Centro Sénior da Portela, criado em 2013 pela ADP, continua sem qualquer apoio da Segurança Social, apesar dos 13 anos de atividade. A autora admite que o livro resulta, em parte, da necessidade de partilhar uma reflexão sobre os desafios enfrentados pela instituição e por quem se dedica ao trabalho comunitário.

O título “Pessoas que cuidam de Pessoas” procura sintetizar a essência do associativismo e da vida em comunidade. “Por detrás das instituições estão pessoas, com capacidades e limitações, a procurar responder às necessidades de outras pessoas”, explica.

Fundada em 2008, a Associação para o Desenvolvimento da Portela nasceu da experiência da iniciativa “Portela em Movimento” e foi crescendo ao longo dos anos, dinamizando projetos nas áreas social, cultural e desportiva. Atualmente desenvolve várias atividades, entre as quais o Centro Sénior da Portela, um grupo de BTT, atelier de pintura, escola de música e escolas de dança.

Ao recordar quase duas décadas de intervenção associativa, Susana Oliveira destaca como principal conquista a transformação da comunidade local. “O impacto mais importante está numa comunidade que antes vivia de costas voltadas e hoje é uma terra de gente unida”, sublinha.

A edição do livro conta com uma tiragem de mil exemplares. O valor angariado com as vendas será utilizado, numa primeira fase, para ajudar a garantir a continuidade do Centro Sénior da Portela. A médio prazo, a associação mantém o objetivo de remodelar e ampliar aquelas instalações, permitindo criar respostas de Centro de Dia e CACI.

Mais do que uma obra autobiográfica, “Pessoas que cuidam de Pessoas” assume-se como uma homenagem aos voluntários, dirigentes associativos e cidadãos que contribuem para o bem-estar das suas comunidades, desafiando os leitores a envolverem-se mais ativamente na vida coletiva.

Em entrevista ao Jornal IMEDIATO, a escritora falou da sua nova obra:

– Como nasceu a ideia de escrever “Pessoas que cuidam de Pessoas”?

A ideia nasceu de uma conversa sobre alguns dos momentos mais marcantes da história da Associação para o Desenvolvimento da Portela e depois veio ao de cima toda a minha ligação ao associativismo e da vontade de dar visibilidade ao trabalho de tantas pessoas que se dedicam à sua comunidade. Ao longo dos anos fui percebendo que aquilo que se vê de uma associação é apenas uma parte do que ela faz. Há muito trabalho discreto, preocupações e decisões difíceis que ficam por conhecer. Quis partilhar uma reflexão minha, quase em jeito de desabafo, sobre essa realidade, a partir da experiência que tenho vivido, e reconhecer quem dá o seu tempo e as suas capacidades aos outros. A possibilidade de fazer deste livro uma iniciativa solidária deu ainda mais sentido à decisão de o publicar.

– Em que momento da sua vida sentiu que tinha chegado a altura de contar esta história?

Esta vontade surge num contexto de desânimo, tristeza e alguma revolta pelo facto de o Centro Sénior da Portela existir há 13 anos e ainda sem qualquer apoio da Segurança Social. A Associação da Portela, as pessoas que a mantêm viva dezoito anos depois, e que o criou, tem sido um exemplo de resiliência e força. Achei que era importante falar disto, desta história, das coisas boas e das menos boas. No entanto, não consigo separar este livro do percurso que fui fazendo. A vontade de passar para o livro aquilo que eu sentia, e sinto, foi ganhando forma com a experiência, com as pessoas que fui conhecendo e com as dificuldades que fomos enfrentando. Senti que havia uma reflexão que valia a pena partilhar e que podia ter utilidade para além da minha experiência pessoal. Nesta fase da minha vida, em que concilio a investigação, o regresso aos estudos e o envolvimento associativo, escrever também foi uma forma de parar e pensar sobre aquilo que me move e que faz brilhar os meus olhos. 

Neste percurso, a minha família de casa tem aqui um lugar muito importante. Somos 4 e um amigo de quatro patas. É com eles que partilho o meu dia-a-dia, as alegrias e as preocupações, e o seu apoio e compreensão ajudam-me a abraçar estes projetos. Esse cuidado que recebo também faz parte desta história e sem ele não seria possível.

– Que mensagem principal gostaria que os leitores levassem consigo depois de ler o livro?

Gostava que os leitores reconhecessem o valor das associações e das pessoas que as mantêm vivas. Muitas respostas de que as comunidades precisam dependem de pessoas que decidem envolver-se e assumir responsabilidades. Esse trabalho merece ser conhecido e apoiado. Gostava também que a leitura despertasse a vontade de participar de forma mais ativa no trabalho voluntário e associativo. Não podem ser sempre os mesmos… é um trabalho exigente. Não precisamos de ter muito tempo ou grandes recursos para começar: podemos estar presentes, colaborar numa atividade ou perguntar a uma associação da nossa terra de que precisa.

– Porque escolheu este título?

Este título traduz a essência daquilo que encontro numa comunidade: pessoas que cuidam de pessoas, através das diversas associações, grupos informais, vizinhos, etc. Com grande foco no associativismo, sublinho que por detrás das instituições estão pessoas, com as suas capacidades e limitações, a procurar responder às necessidades de outras pessoas. Cuidar pode ser prestar apoio, mas também ouvir, fazer companhia, criar oportunidades ou garantir que alguém não fica esquecido. O título pareceu-me uma forma simples e próxima de expressar essa relação humana que dá sentido ao papel que cada um de nós desempenha no dia-a-dia em comunidade.

– Houve algum episódio particularmente marcante que sentiu que tinha obrigatoriamente de fazer parte da obra?

Mais do que destacar um único episódio, senti que era importante dar espaço ao que habitualmente fica menos visível: o esforço necessário para manter uma associação a funcionar e a responsabilidade de quem sabe que há pessoas a contar com ela. Na experiência da Portela, a persistência necessária para dar continuidade ao trabalho do Centro Sénior é particularmente significativa para mim e para todos quanto trabalham para que a porta continue aberta. Quis que essa dimensão de compromisso com as pessoas estivesse presente na reflexão do livro e trazer à discussão o papel importante que as entidades locais e nacionais podem ter nesta matéria.

– Foi emocionalmente difícil revisitar algumas das histórias e experiências que retrata?

Houve momentos de maior emoção, porque escrever sobre uma realidade que nos é próxima, numa fase tão difícil da Associação, obriga-nos a voltar às preocupações e às dificuldades que vivemos. Quando estamos envolvidos, procuramos resolver o que é mais urgente e seguir em frente. A escrita dá-nos algum tempo para pensar no que aconteceu e no que isso significou para nós. Mas também permite recordar a entreajuda e reconhecer quem esteve presente. Não foi apenas revisitar dificuldades; foi voltar a perceber quantas pessoas tornam possível este trabalho e o quão importante era haver um registo formal desse trabalho, em jeito de reconhecimento e homenagem a todos.

– Afirma que as pessoas devem cuidar umas das outras. Considera que a sociedade atual está mais solidária ou mais individualista?

Vejo sinais das duas coisas. Há pessoas muito disponíveis para ajudar e uma capacidade de mobilização que me continua a dar alguma esperança. Mas essas pessoas tendem a ser sempre as mesmas e começam a dar sinais de cansaço…e há que estar atentos aos sinais.

Ao mesmo tempo, o ritmo de vida, as dificuldades das famílias e a falta de tempo podem afastar-nos uns dos outros. Acho que se perdeu um pouco o espírito de comunidade e de estar presente para os outros. Ninguém tem tempo, as agendas estão cheias, as pessoas andam num ritmo alucinante e ficam exaustas, sem vontade de socializar. Contudo, não considero justo confundir sempre essa falta de disponibilidade com indiferença. Podemos não ter disponibilidade para estar numa atividade, mas não quer dizer que sejamos indiferentes à mesma. Podemos ajudar de muitas formas. Ainda assim, precisamos de criar mais oportunidades de encontro e de participação regular. As associações podem ajudar muito nesse sentido, porque aproximam pessoas em torno de necessidades concretas.

– Que desafios encontrou ao longo destes anos de intervenção social?

Um dos maiores desafios é assegurar continuidade com recursos tão limitados. O trabalho associativo ainda não é reconhecido como merece, salvo raras exceções, pelo devido valor e impacto que tem numa comunidade e numa terra. As necessidades não desaparecem quando termina uma iniciativa de angariação de fundos: há despesas regulares e pessoas que precisam de uma resposta todos os dias. Acrescem as exigências administrativas, impostos, a procura de financiamento e a dificuldade de mobilizar novos voluntários e dirigentes. Reconheço que conciliar este compromisso com a vida profissional e familiar não é fácil, mas é possível quando há vontade e sentido de missão. Ao longo destes anos, aprendi que a vontade de ajudar precisa de organização, de trabalho em equipa e de condições que permitam às instituições continuar, caso contrário é uma luta diária, desgastante e que pode deixar por terra grandes projetos.

– Há alguma história de vida que a tenha marcado particularmente e que nunca tenha esquecido?

Ao longo deste percurso, fui conhecendo muitas histórias de vida que me fizeram olhar de outra forma para a solidão e para a importância das respostas sociais numa terra. O contacto com essas realidades e a minha própria vida ajudaram-me a tornar-me na pessoa que sou hoje. O que guardo no coração são os gestos que, por vezes, parecem pequenos, mas que podem ter um significado muito grande para quem os recebe.

– Fundou a associação há 18 anos. Como nasceu esse projeto?

Na altura, em 2008, eu desempenhava a função de secretária da Junta de Freguesia da Portela e tínhamos lançado a iniciativa “Portela em Movimento”. Deu para perceber que a população participava com muito entusiasmo e que estava sedenta de vida e convívio. Então, comecei a idealizar na minha cabeça como poderia ser se existisse uma associação que assumisse esse papel na nossa terra. Falei a pessoas para se juntarem a mim, agarraram a ideia e eis que já lá vão 18 anos de serviço à comunidade, envolvendo tanta gente, tantas mãos e tantos corações. Atualmente, para além do Centro Sénior, temos o nosso grupo de BTT Kunalama; o atelier de pintura com a Elsa Martins e a iniciativa mensal “Comer, Beber e Pintar”; a Escola de Música com a Mafalda Pinto e a escola de dança Urban Beat também turmas nas nossas instalações. Somos uma associação bastante dinâmica, que trabalha com todos os públicos, desde os mais novos aos mais séniores.

A criação do Centro Sénior surge então em 2013, com o objetivo de dar uma resposta aos mais séniores e foi um passo muito importante nesse percurso. Faz um trabalho fabuloso diariamente com os nossos utentes, que se sentem em casa, no seio de uma família. Quando penso nestes anos, penso sobretudo na capacidade de continuar a trabalhar, mesmo com dificuldades, e no contributo de todos os que têm feito parte da associação. Apesar de tudo, olhamos para trás e é maravilhoso o que fomos construindo. Faríamos tudo de novo, porque tudo valeu a pena.

– Quando olha para trás, qual considera ser o maior impacto da associação na comunidade?

O impacto mais importante está numa comunidade que antes vivia de costas voltadas e hoje é uma terra de gente unida, independentemente da ideologia política de cada um. O impacto está na vida das pessoas que encontram nesta associação o apoio, a companhia e um lugar onde se sentem reconhecidas, mas também naquelas que dão ali o seu tempo, a sua atenção, que contribuem como podem para ajudar e dão uma parte de si para tornar o nosso mundo um bocadinho melhor. Esse impacto não cabe nos números, mas percebe-se na confiança que se constrói e na presença que a associação passa a ter na vida das pessoas. E uma coisa é certa: o Centro Sénior da Portela ainda continua de portas abertas e à comunidade o devemos, porque tem sido graças a todas as ajudas que ainda é possível continuar a nossa missão.

– O que representa para si saber que as receitas do livro vão apoiar a instituição?

Estou muito feliz por conseguir tornar mais uma ideia em algo visível. Ter mil exemplares de um livro, onde falo do que me vai no coração, e poder colocá-lo à venda por uma causa tão nobre, é algo extraordinário. E o mais bonito é que eu não estive sozinha neste caminho: foram várias as pessoas que se envolveram e tornaram possível a execução do livro e outras tantas estão envolvidas na preparação do dia do lançamento. Cada pessoa que compra um exemplar participa também nesse esforço. E todos juntos contribuímos para algo maior e tão importante na nossa comunidade.

– Que projetos gostaria de concretizar com esta iniciativa solidária?

O dinheiro da venda dos 1000 exemplares servirão, em primeira instância, para ajudar a manter o Centro Sénior da Portela aberto. Não é suficiente, sabemos disso, mas é uma ajuda. Depois, o nosso Sonho continua (https://umsonho.pt/) e temos a ambição de remodelar e ampliar o Centro Sénior, para disponibilizar as valências de Centro de Dia e CACI e sabemos que a execução deste projeto vai exigir recursos e a conjugação de vários apoios. Não espero que a venda do livro resolva, por si só, uma necessidade dessa dimensão, mas pode ser um contributo e uma forma de dar a conhecer esse objetivo e a despertar novas ajudas de pessoas que têm vontade e possibilidade de ajudar a fazer a diferença numa comunidade. Afinal, a questão última é sempre a mesma: como queremos ser lembrados quando já cá não estivermos?

– Que conselho daria aos jovens que querem envolver-se em projetos de voluntariado e intervenção cívica?

Que se aproximem de uma causa com a qual se identifiquem e comecem por conhecer as pessoas e ouvir o que é necessário. Não é preciso esperar por ter todas as competências ou uma disponibilidade enorme. É preferível assumir uma colaboração que consigam manter e cumprir com responsabilidade. Os jovens têm ideias e capacidades que fazem falta às associações, e também têm muito a aprender com quem já lá está. O voluntariado pode ser uma experiência muito enriquecedora precisamente por permitir essa troca e ajuda-os a desenvolver competências sociais que vão ser extremamente úteis no seu percurso de vida.

– O que espera que aconteça depois da publicação deste livro?

Espero que o livro seja lido, que desperte conversas sobre o associativismo e que ajude a mobilizar apoio para a Associação para o Desenvolvimento da Portela. Gostava que algumas pessoas, depois da leitura, se sentissem mais próximas das associações da sua comunidade e com vontade de participar. A apresentação de 7 de novembro, às 17 horas, no Auditório do Museu Municipal de Penafiel, será uma oportunidade para nos encontrarmos e partilharmos esta reflexão.

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