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“Ser escritor é um título muito grande”

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Eu tinha pensado escrever sobre Lídia Jorge, desta vez… Mas, desta vez foi diferente…
Entrei no café pela manhã e ouvi: Morreu Lobo Antunes… Depois, numa visita habitual, disseram-me: Morreu Lobo Antunes… Na florista… morreu Lobo Antunes… Logo a seguir, uma mensagem no telemóvel: Morreu Lobo Antunes… E foi assim, talvez eu já estivesse à espera desta notícia, porque a vida é isto: Nasce, tem de morrer e Lobo Antunes estava doente, muito doente há muito tempo, isto teria de acontecer…

Para mim, torna-se fácil falar de Lobo Antunes, há muito que o leio, que o conheço, que o distingo de outros escritores. Mesmo quando leio sobre os outros que, com ele conviveram, esses outros falam dele, do que escreveu, do que deixou escrito para que nós, leitores, tenhamos a possibilidade de o descobrir.

Assim, depois desta notícia que me entregaram logo pela manhã deste início de Março, cheguei à estante da minha biblioteca e contei: 20 livros! Não sobre o escritor e esses são outros, 20 livros escritos por A.L.A., dos muitos que escreveu e alguns desses, autografados pelo próprio autor… Isto é uma dádiva, convenhamos!

Falar de Lobo Antunes não é difícil mesmo sabendo que foi um escritor nada fácil para muitos. Os que gostaram dele e o quiseram imitar, os que não o quiseram suportar… Ouvi-o falar duas ou três vezes e reconheço que foi, que é, um escritor pouco convencional. Escrevendo sempre à mão, faz e refaz várias vezes a narrativa e fez questão de dizer que após a entrega do material na Editora, esquecia definitivamente o que inscrevera nos seus livros. Não sei bem se foi assim e, relendo João Céu e Silva e as suas “Longas Viagens…”, parece-me poder concordar com o escritor que dizia: “Eu acho que não faço nem poesia, nem ficção, nem romance, nem nada…”. Então, o que esperar de tantos livros com títulos inesperados, estranhos, quase sem personagens às vezes, escritos num modo tão pouco comum e que, tantos, tentaram imitar?

Foi, muitas vezes, difícil de ler, de perceber as suas ideias, às vezes contraditórias, às vezes magoadas, às vezes duras e quase sempre inovadoras… Daria uma longa conversa a análise dos seus títulos, das suas personagens… Muitas vezes, deixou correr os seu cavalos literários pelo Portugal do interior, de alguma Lisboa também e, quase sempre, foi remoendo as suas memórias… Afastou-se muitas vezes da norma de escrita e, num estilo próprio, pouco comum, deixou que a vida, quase sempre, fosse o seu principal assunto… Parecia, outras vezes, andar fugido da sua marca narrativa e querer voltar a surpreender com um romance novo, de ruptura. Às vezes, escreveu com dureza, com uma abertura diferente para lançar novo livro, muito em tom confessional, revendo a sua carreira e vida profissional…

Foi, continuará a ser um escritor maior, com uma obra gigante que é o reflexo da sua vida: incoerente, sentimental,visceral, emocionado muitas vezes. Que nunca fugiu dos temas duros: o suicídio, a guerra, o vazio, a doença… livros que fazem a vida difícil ao leitor! Um escritor que sempre me pareceu moldar-se com a matéria humana e que, apesar de tudo, apesar dos imensos prémios que recebeu, nunca alcançou o Nobel que merecia…

Como disse um dia, “Ser escritor é um título muito grande” e A.L.A. merece continuar a ser lido, a ser estudado! É difícil trabalhar com a linguagem de Lobo Antunes, mas também é um fascínio…

 

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