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O Socialismo já não é o que era em Paços de Ferreira

patricia nascimento
maxibroker

Paços de Ferreira inaugurou, no domingo, 1 de fevereiro de 2026, um “Serviço de Atendimento Permanente de Medicina Familiar e de Enfermagem”, gratuito para residentes no concelho, sediado num operador privado: o Hospital Lusíadas, no Shopping Ferrara Plaza.

O facto politicamente relevante não é a gratuitidade (que é positiva), nem o facto de a Câmara Municipal de Paços de Ferreira procurar uma solução rápida. A ironia está em que um executivo de matriz socialista — no contexto da descentralização de competências do Governo para os órgãos municipais — opte por cumprir uma responsabilidade pública, sublocando capacidade ao setor privado, enquanto, no concelho, existem edifícios públicos que já foram hospitais (ou estiveram ligados a funções de saúde) e que hoje estão devolutos, fechados, à espera de que as ervas tomem conta deles.

Temos, de um lado, estruturas públicas que já provaram outrora, poder ser suporte de resposta comunitária em diversas áreas do concelho; do outro, uma resposta municipal que se instala dentro de um operador privado. Se isto não é um verdadeiro teste às “bases do socialismo”, então o que é?

Se há algo verdadeiramente “de esquerda” a fazer no concelho, é ressuscitar o que já é público e está ao abandono. Até porque Paços de Ferreira, na zona do “Vale do Sousa”, está claramente no lado “envelhecido” da balança geracional —o concelho apresenta um índice de envelhecimento de cerca de 145 pessoas com mais de 65 anos por cada 100 jovens com menos de 15 anos. Destes dados só podemos fazer uma leitura: quando a estrutura etária está inclinada para os mais idosos, a procura por respostas permanentes (cuidados continuados, apoio domiciliário, centro de dia e ERPI) vai ser inevitável a curto/médio prazo e é por isso, que não faz sentido ter património público antigo ligado à saúde devoluto, quando podemos ponderar ativos financeiros e respostas para a comunidade, ao dar-lhe uso prático ao invés de recorrer em a soluções privadas.

A rapidez deste envelhecimento é visível e isso, devia ser uma prioridade para o executivo municipal: prevenir e executar um plano de médio e longo prazo, para os cuidados aos nossos idosos, para a saúde no concelho e para dar uso ao que é publico e está ao abandono. Num concelho com este perfil demográfico, a falta de respostas residenciais e de apoio a idosos é um problema real para as famílias, com sinais claros de insuficiência de equipamentos que deem resposta ao envelhecimento crescente no concelho. E, neste ponto, a reconversão poderia até representar uma oportunidade para o concelho, atraindo famílias de fora para dentro.

Deixo por isso, uma sugestão ao executivo: reativar os edifícios existentes, com uma reabilitação faseada, que permita transformar edifícios abandonados em investimento que fica no concelho, criando respostas para a população, dando utilidade a um ativo que é de todos e quanto mais tempo está parado, maior manutenção exigirá, reduzindo a dependência de soluções fáceis e “chave na mão”.

O socialismo, na sua matriz mais elementar, define-se por uma preferência institucional muito concreta: quando uma comunidade precisa de um serviço essencial, a prioridade é construir e manter capacidade coletiva própria (infraestruturas, equipas, organização e continuidade), sob controlo democrático e com prestação de contas (ou pelo menos deveria). O socialismo valoriza políticas públicas que criem infraestruturas sociais duradouras, ao invés de depender de compras avulsas e soluções de curto prazo. Com isto percebemos, que o privado não é suposto ser o eixo da solução pública, sobretudo quando existem ativos públicos disponíveis e quando o problema no concelho é previsível (após as 20h00, aos fins de semana e feriados).

Há ainda um pormenor que torna esta escolha mais irónica: esta Câmara tem, tradicionalmente, uma forte preferência por municipalizar tudo o que pode — foi o caso das creches… mais serviços “dentro de portas”, mais funcionários municipais, mais estruturas próprias. Ora, é precisamente por isso que a opção de colocar uma resposta “fora de horas” num operador privado me soa estranha e revela, até, uma inversão de instinto político deste executivo.

Na Assembleia da República, a 28 de janeiro de 2026, foi votada uma proposta de alteração à Lei de Bases da Saúde (apresentada pelo partido Chega), e é aqui que a ironia fica ainda mais exposta: o Partido Socialista (PS) votou contra uma norma que pretendia inscrever na Lei de Bases uma espécie de “obrigação automática” do Serviço Nacional de Saúde (SNS) de reencaminhar utentes em espera para o setor privado (ou social) quando fossem ultrapassados os tempos máximos de resposta garantidos para consultas ou cirurgias. A justificação do sentido de voto por parte do PS foi clara: rejeitou-se a normalização do recurso ao privado para suprir respostas que devem caber apenas ao SNS.

Ou seja: em Lisboa, o PS rejeita — e bem, do ponto de vista do princípio socialista — que a lei normalize o privado como muleta estrutural para tapar falhas do sector público; mas, em Paços de Ferreira, perante uma necessidade no concelho, a solução escolhida pela Câmara Municipal é precisamente uma parceria com um hospital privado para suprir uma lacuna.

Isto é caso para refletir: ou o socialismo já não é o que era, ou finalmente assumiu que o público não consegue responder a todas as necessidades das populações — e que, por isso, é preferível a via do privado quando dá menos trabalho político e organizacional à Camara Municipal de Paços de Ferreira.

Patrícia Nascimento, deputada no Chega na Assembleia da República

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