O recente choque de titãs entre Jorge Jesus e Cristiano Ronaldo na Seleção Nacional esgotou rapidamente o vocabulário das crónicas desportivas. Falou-se em egos desmedidos, em quebra de confiança, no fim de um ciclo tático e na dificuldade de gerir vedetas. No entanto, para compreendermos verdadeiramente o absurdo e a inevitabilidade deste conflito, temos de abandonar o jargão futebolístico e olhar para a natureza do que estava, de facto, sentado no banco de suplentes.
Na década de 1980, o pensador francês Jean Baudrillard cunhou o conceito de Simulacro e de Hiper-realidade. Baudrillard argumentava que a sociedade contemporânea estava a chegar a um ponto de saturação onde as imagens e os símbolos substituiriam a própria realidade. O “mapa” tornar-se-ia mais importante e mais real do que o “território”. O que consumimos hoje já não são as coisas em si, mas a ideia das coisas, a sua representação mercantilizada.
É exatamente aqui que reside a chave para o drama da Cidade do Futebol. O homem que se levanta para aquecer à beira do relvado já não é o Cristiano Ronaldo, o atleta de carne e osso, sujeito à gravidade, ao desgaste das cartilagens e ao inexorável declínio biológico. Esse jogador, o “território”, já quase desapareceu. No seu lugar ergue-se o “mapa”: a hiper-realidade chamada CR7.
CR7 não é um extremo-esquerdo ou um ponta-de-lança; é um conglomerado global. É uma multinacional que movimenta milhões em direitos televisivos, venda de camisolas, interações digitais e acordos de patrocínio. A sua mera presença no campo não serve para rasgar as defesas contrárias, como outrora, mas para validar o valor económico do espetáculo aos olhos de um planeta inteiro.
O pecado capital de Jorge Jesus não foi um erro de leitura tática, mas um erro de dimensão existencial. O treinador agiu com a ingenuidade tacanha de quem acredita que ainda vive na realidade. Ao olhar para o relvado, Jesus viu um jogador veterano, cuja utilidade desportiva ditaria os minutos que deveria jogar. Geriu músculos, pulmões e estratégia. Mas, ao mandar aquecer Cristiano e ao recusar-se a usá-lo ou a encobri-lo na sala de imprensa, Jesus não estava a sentar um jogador no banco; estava a tentar desvalorizar o ativo principal de uma bolsa de valores transnacional.
O choque foi brutal porque operou em linguagens intraduzíveis. Jesus é o homem do território: das táticas, do grito no balneário, do suor e do rendimento prático. Mas o futebol moderno, as federações e a FIFA já não habitam o território; vivem confortavelmente na hiper-realidade de Baudrillard, onde a imagem de CR7 em campo é desportivamente nula, mas financeiramente imperativa.
A crise rebentou porque uma marca global não obedece a chicotadas psicológicas. Quando a Federação e o ecossistema mediático reagem em pânico a esta quebra de confiança, fazem-no porque sabem que a estrutura colapsa se o simulacro for exposto à luz da realidade.
No fundo, a tragédia de Jorge Jesus neste episódio é a tragédia do último romântico analógico. Ele tentou aplicar as regras da gestão humana e desportiva a um holograma financeiro. E aprendeu, da pior forma, que na hiper-realidade do século XXI, o treinador pode até mandar no relvado, mas é a marca que dita a lei do jogo.
