A recente notícia do IMEDIATO sobre as eleições internas do PSD local mostra uma realidade que devia deixar toda a gente a pensar: o partido que lidera a coligação governamental conta com apenas meia centena de militantes ativos a votar na concelhia. E se olharmos para o atual cenário do PS, o panorama não deverá ser muito diferente.
Isto deixa uma pergunta muito séria: afinal, para que servem os partidos e que peso real é que eles mantêm no terreno?
A verdade é que os partidos se transformaram em palcos de elites que monopolizam as decisões e se distanciam das bases. Perante este cenário, não admira que nas concelhias fiquem reduzidos a umas dezenas de militantes e que, por manifesta falta de massa crítica, surja apenas uma lista única a votos.
Paços de Ferreira: o espelho do esvaziamento
O caso de Paços de Ferreira é o espelho perfeito deste esvaziamento partidário. Durante anos, vendeu-se a ideia de que o PS era aqui uma força imbatível. Mas a realidade desmentiu a narrativa: quem ganhava a Câmara e a Assembleia não era o símbolo do partido, era o magnetismo político do ex-social democrata Humberto Brito.
O próprio aparelho distrital do PS sabia disso tão bem que desconsiderou os militantes da terra. Quando a comissão política concelhia, legitimada pela esmagadora maioria obtida pela lista de Armanda Fernandez, tentou fazer valer a força das bases, a estrutura distrital do Porto interveio de cima, avocou o processo e desautorizou a liderança local.
Foi um episódio lamentável de puro pragmatismo político, desenhado apenas para segurar o homem que garantia o eleitorado. Ou seja, a voz de quem vive o partido socialista nas terras de Paços de Ferreira valeu zero.
E no meio disto tudo, para que servem afinal as Comissões Políticas Concelhias? No papel, deviam ser a voz da terra e escolher quem nos representa. Na prática, estas estruturas locais aproximam-se de meras máquinas burocráticas e sazonais.
A sua função resume-se a tratar da papelada jurídica exigida pelo Tribunal Constitucional e a correr, em ano de eleições, a recrutar nomes à pressa para preencher as centenas de lugares vazios nas listas confessionais. São intermediários logísticos: quando tentam ter voz própria, o topo do partido esmaga-os; quando chega a hora da verdade, o eleitorado passa-lhes por cima.
O choque das legislativas e o “triângulo” do poder local
A máscara caiu estrondosamente nas legislativas. Luís Montenegro, apoiado nestas estruturas locais quase desertas, chegou a Primeiro-Ministro.
Em Paços de Ferreira, o eleitorado comprou a bandeira laranja e relegou o PS para um impensável terceiro lugar. O que mais doeu ao aparelho foi o choque de ver o Chega passar à frente do PS de Humberto Brito.
O presidente da Câmara, condicionado pelo limite de mandatos, suspendeu as funções autárquicas para integrar a lista de deputados. O PS acreditava que o seu nome arrastaria o eleitorado em massa, mas os votantes locais preferiram dar força ao Chega, empurrando os socialistas para a terceira posição.
A continuidade camarária e o paradoxo do voto
Posteriormente, viu-se a sobrevivência do projeto autárquico local. Longe de uma rutura, o partido socialista seguiu a linha da continuidade natural e apostou em Paulo Ferreira, que já exercia como vice-presidente, dominava a gestão municipal e socialista dos sete costados. O eleitorado local reconheceu o valor da equipa executiva, permitindo a Paulo Ferreira segurar a Câmara.
Mas o paradoxo deste cenário é evidente: enquanto o PS celebrava a presidência da Câmara, o PSD dominava a maioria das juntas de freguesia e consequentemente a Assembleia Municipal. Nem o cariz forte do Presidente da Comissão Política do PS e Deputado Humberto Brito salvaguardou o território de maior proximidade.
O eleitor dividiu o poder pelo triângulo autárquico e provou que as lideranças não controlam a vontade da base.
A decadência viva da nossa democracia partidária
Isto demonstra o quê? A alarmante perda de relevância da militância tradicional.
Os partidos hoje transformaram-se em máquinas de marketing e ecrãs de televisão. Os militantes de base parecem servir apenas para aplaudir e colar cartazes.
No momento das decisões profundas, o topo impõe-se; na hora do voto, o povo escolhe livremente a bandeira nacional, a continuidade camarária ou o protesto do momento, conforme dita a sua conveniência.
Sem debate interno real e com eleições de lista única para cumprir calendário, quem dita o rumo são os mesmos de sempre. Os militantes e ex-militantes assistem de fora àquilo que é, na verdade, a decadência viva da nossa democracia partidária.
Ricardo Pereira, 31 maio 2026

