A participação de Luís Cardoso na 19.ª edição do Escritaria – o festival literário que começou esta terça-feira em Penafiel – tem sido pautada por encontros com os alunos das escolas do concelho. Na Escola Secundária de Penafiel, o escritor timorense refletiu sobre a literatura, a história de Timor-Leste, o papel dos sonhos e a importância da língua portuguesa.
Perante uma plateia de estudantes, o homenageado desta edição do Escritaria começou por agradecer o convite da Câmara Municipal de Penafiel, da Biblioteca Municipal e da comunidade escolar, confessando sentir-se honrado por integrar um festival literário que acompanha há vários anos.
Ao longo da conversa, que se desenrolou sobre três das suas obras, “Crónica de uma Travessia”, “Para Onde Vão os Gatos Quando Morrem?” e “Hotel Timor”, o escritor recordou episódios da sua infância em Timor-Leste e explicou de que forma as suas experiências pessoais e a história do seu país se transformaram em literatura.
Sobre “Crónica de uma Travessia”, obra integrada no Plano Nacional de Leitura, explicou que nasceu da vontade de contar aos mais novos as histórias de Timor e de dar a conhecer uma realidade marcada pela diversidade cultural e linguística. “Cada criança timorense fala três ou quatro línguas”, sublinhou o escritor, referindo a riqueza de um país onde coexistem dezenas de idiomas.
A literatura de Luís Cardoso, assumiu, vive também da fronteira entre realidade e imaginação. O autor falou do peso do realismo mágico na cultura timorense, onde o mundo dos vivos e dos antepassados se cruzam de forma natural, e destacou o papel dos sonhos na construção do percurso individual e coletivo. “Sempre fui um sonhador”, confessou, recordando a infância na ilha de Ataúro e as imagens que construía sobre Portugal muito antes de aqui chegar. Para o escritor, sonhar continua a ser uma ferramenta fundamental para mudar vidas e construir sociedades mais justas.
Grande parte da sessão foi dedicada à história recente de Timor-Leste. O autor recordou a ocupação indonésia, o sofrimento vivido pelo povo timorense e o papel que Portugal desempenhou no processo que conduziu à independência do país. Falou também do envolvimento pessoal na causa timorense, motivado por perdas familiares e pela morte de pessoas próximas durante o conflito.
Apesar das dificuldades que reconhece existirem ainda em Timor-Leste, considera que o país continua a ser uma construção em curso e defende que o progresso passa por uma forte aposta na educação, na democracia e no poder local.
Num dos momentos mais aplaudidos da conversa, dirigiu-se diretamente aos jovens para valorizar a língua portuguesa e incentivar hábitos de leitura e escrita. “Leiam livros para utilizarem melhor o vocabulário da língua portuguesa”, apelou, defendendo que a língua deve ser usada em toda a sua riqueza e beleza.
No final, o autor deixou um conselho inesperado aos estudantes. “Escrevam cartas de amor”, referiu, justificando que escrever ajuda a descobrir palavras, sentimentos e a compreender melhor os outros e o mundo. “Faz-nos bem. Não só a quem recebe as cartas, mas a nós próprios”, concluiu.
A conversa integrou o programa da 19.ª edição do Escritaria, que decorre até 25 de outubro em vários locais do concelho de Penafiel e presta homenagem a uma das vozes mais reconhecidas da literatura contemporânea de Timor-Leste.
