Curioso: há Literacia Financeira nas escolas. Não há Literacia do Bem Comum.
Na Escola contemporânea, ensina-se a gerir dinheiro, mas não a pensar a justiça das regras económicas. Aprende-se a administrar interesses individuais, mas não a compreender responsabilidades coletivas.
Esta assimetria não é neutra. Revela uma hierarquia de valores que altera profundamente o sentido da Educação pública. A inclusão da Literacia Financeira nas escolas é, por isso, uma decisão que mexe nos fundamentos da Constituição da República Portuguesa, em particular no seu princípio personalista e humanista da Educação.
Não se trata de uma opção meramente técnica ou pedagógica, mas de uma escolha política que influencia a forma como a Escola pública define a sua missão. A Constituição não concebe a Educação como simples preparação funcional para o sistema económico. Coloca no seu centro a Pessoa, a dignidade humana, o desenvolvimento da personalidade, a consciência cívica e a participação democrática.
A Educação surge como condição da liberdade e como espaço de formação integral, não como instrumento de adaptação acrítica às exigências do mercado. Este princípio articula-se inseparavelmente com a noção de bem comum.
A Educação pública não existe apenas para garantir percursos individuais de sucesso, mas para formar cidadãos capazes de compreender a interdependência social e de assumir responsabilidades coletivas. Fora deste horizonte, a Escola deixa de formar cidadãos e limita-se a preparar indivíduos para gerir a sua posição num sistema apresentado como inquestionável.
“Aprende-se a calcular antes de aprender a julgar; a gerir consequências antes de interrogar causas.”
Ensinar noções básicas de economia ou de gestão de recursos não é, em si mesmo, incompatível com este quadro constitucional. O problema surge quando a Literacia Financeira deixa de ser um saber instrumental e passa a ocupar um lugar estruturante no currículo e na forma de pensar a Escola, substituindo a formação ética, cívica, artística, crítica e social.
Nos dias de hoje, a Escola corre o risco de reduzir a formação humana à sua dimensão produtiva. Quando a eficiência, o desempenho, o vencer e a adaptação ao sistema se tornam critérios centrais, a Educação passa a valorizar sobretudo aquilo que é mensurável, útil e funcional.
A Pessoa deixa então de ser vista como sujeito de sentido, de relação e de responsabilidade, passando a ser encarada essencialmente como homo faber: alguém que produz, executa, gere e se ajusta ao sistema. Esta redução não é neutra nem ingénua.
Ao privilegiar a formação do homo faber, a Escola afasta-se do seu fundamento constitucional e empobrece a ideia de humanidade que transmite às crianças e aos jovens. A liberdade transforma-se em capacidade de funcionar; a cidadania reduz-se à gestão individual da sobrevivência; o bem comum desaparece do horizonte educativo.
Os riscos do neoliberalismo na Escola pública não residem apenas nos conteúdos ensinados, mas no modelo de sujeito que se constrói. Quando o sucesso passa a ser entendido exclusivamente como desempenho individual e o fracasso como responsabilidade pessoal, a Educação deixa de corrigir desigualdades e limita-se a reproduzi-las.
A cidadania cede lugar à competição e o vínculo social é substituído pela lógica do mérito isolado. Ao antecipar um futuro marcado pela precariedade, pela dívida e pela adaptação permanente, a Escola alimenta a angústia dos alunos e transforma o medo num método pedagógico.
Uma Escola que educa apenas o homo faber não forma cidadãos livres; prepara indivíduos funcionais para sobreviver num sistema que já não se interroga.
Ricardo Pereira, abril 2026
