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É tudo fascismo?

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Num artigo de opinião, intitulado “Hitler e Salazar não eram fascistas?”, no jornal “Diário de Notícias”, o seu subdiretor, Pedro Tadeu, alguém assumidamente comunista – algo perfeitamente legítimo -, faz uma crítica aos intelectuais que, a partir da sua investigação, notam diferenças importantes entre as ditaduras que existiram no século XX, portanto, discordam com a classificação generalizada de fascismo para todos esses regimes.

O argumento é o de que quem sofreu às mãos dessas formas de governo, porventura, se sentirá despojado de valor: a conotação com o sofrimento atroz infligido por esses poderes totalitários, na opinião de Tadeu, é o bastante para os qualificar como fascistas. Fascista, é assim uma espécie de imagem de marca para todo e qualquer regime despótico. Esta conceção só fica completa juntando-lhe a colocação no campo da extrema-direita e aqui está a definição deste jornalista e a que é mais popular.

Esta conceção até poderia ser aceitável, se o despotismo, para começar, fosse uma característica, apenas e só, de direita: o autor é militante de um partido de raiz estalinista – com certeza não defenderá Estaline e o que lhe seguiu, mas apresenta tendência a um certo obscurecimento da lucidez. É um facto que se adotarmos o referencial indicado pelo jornalista Pedro Tadeu, quase que poderíamos chegar àquilo que muitos consideram absurdo – o que talvez não seja -, de regimes de cariz de extrema-esquerda do mesmo século XX, poderem ser considerados fascistas: a repressão com violência extrema não era apenas apanágio da extrema-direita – se for admissível qualquer tipo de contabilidade, o número de vítimas perpetradas por regimes de esquerda será até maior.

O trabalho e respetiva publicação de vários intelectuais que se debruçam sobre o tema, sublinhando diferenças, na sua generalidade – há sempre exceções-, não o fazem para desculpar qualquer totalitarismo, para branquear sofrimento infligido em massa, antes, pretendem fornecer ferramentas para podermos entender com a maior acuidade possível toda a espécie de movimentos inorgânicos que vão aparecendo em todo o mundo. É um erro assimilá-los aos que existiram no século XX, desde logo, porque a maioria destes fenómenos atuais se movimentam no interior dos sistemas de democracia liberal, conceito pouco ou nada presente até meados do século XX. Para podermos combater tendências de ameaça à melhor convivência humana, há que atender às suas especificidades, começando pela diferenciação de índole histórica e política presente em trabalhos já produzidos, como, por exemplo, no insuspeito “O Fascismo Eterno” de Umberto Eco – texto que para além de distinguir o fascismo do nazismo e de outras correntes, designa as propriedades do fascismo.

É um exercício retórico, o argumento formulado, por analogia, pelo jornalista em questão, afirmar que também não se diferenciam as democracias, apesar de todas elas apresentarem peculiaridades de vária ordem. Estas não colocam em causa o tipo de liberdades que os indivíduos por si governados, aceitam. Pelo contrário, quando falamos de autoritarismo, há que perceber o que está na sua génese e essência, para que possa ser contrariado eficientemente. A promoção deste tipo de trabalho por parte dos intelectuais e não só, é fundamental. Torna-se imperativo evitar aquele outro trabalho em prol da criação de ideologias ou formação de opinião com intuito manipulador.

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