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Democracia ou plutocracia?

Alberto Santos

Desde que me conheço, ouço dizer que vivemos no mundo livre, em oposição a um outro mundo, que seria de miséria, obscurantismo, comunismo e outras coisas “terríveis” …

Este maravilhoso mundo livre, vendido e propagandeado como o paraíso da igualdade oportunidades, da liberdade de expressão, do respeito pelos direitos humanos, não podia, no entanto, estar mais distante do paradigma proposto.

Nele, recursos e serviços que ontem eram públicos, ou seja, de todos nós, pertencem cada vez mais a um círculo restrito de possuidores que os gerem não no interesse dos utilizadores, mas no seu próprio interesse. A voragem do lucro privado, dos impérios corporativos, impôs-se e impõe-se assim ao interesse colectivo, não se dando agora sequer ao trabalho de disfarçar os seus fins. E esses fins são claros, das concessões mineiras do lítio, à privatização das praias, à privatização da saúde, à privatização dos comboios, eles não têm fim…

Nele, os sonhos de constituir família, de ter casa própria, de ter uma vida estável, há muito se perderam. No entanto, não chegámos aqui do nada. Chegámos, ao contrário, como resultado de uma programação continuada, induzidos a uma nova servidão da gleba.

Hoje, sobrevivemos. Com salários estagnados, com o recurso cada vez mais corrente ao duplo emprego, não há, não pode haver, vidas consolidáveis. Sem recursos, as vidas perdem-se, líquidas, apanhadas na implacável torrente da ganância corporativa. Espoliadas de qualquer sonho ou ambição individual, as vidas vão deixando de o ser, reduzidas que são a meras existências.

Ao mesmo tempo que nos erradicam os sonhos e ambições, poderes ocultos impingem-nos, pelos media, que são seus, as suas narrativas. Nelas, nada é contraditado, tampouco questionado. Balizas previamente definidas asseguram que nada seja contestado, lançando para o oblívio qualquer dissidência ou dissidente.

Outrossim para os ideais. O ideal, agora único, é o sucesso à la carte, consubstanciado na idolatria de figuras, as mais das vezes pouco aconselháveis, e na ficção das suas vidas privadas, como se delas dependesse a nossa felicidade.

Os espíritos, assim dormentes ou ocupados com bagatelas, demitem-se do escrutínio da política e da sociedade, permitindo aos impostores que nos governam continuar, como fiéis serventuários que são de poderes económico e de sociedades secretas, a alienação de bens e serviços públicos a favor de inconfessáveis interesses.

Enquanto vivemos a ilusão de uma democracia que não temos, do outro lado, do lado dos “maus”, chegam-nos notícias como “90% dos chineses têm casa própria” ou “cerca de 70% dos chineses entre 19 e 36 anos já possuem casa própria”.

Ah, mas eles não têm democracia, dirão alguns! E nós temos? A mim, parece-me vivermos numa plutocracia!

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