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“Crónicas de Lisboa” – O meu bronzeado é melhor do que o teu”

Autor de "Europa"; "Coração"; Ratinho" "Viagem" " Natal " " Carris" " Postais" ,"Uma Criança ou Um Cão?"
Pessoas 2030

Nestes últimos dias de maio – ainda de primavera, o sol e as temperaturas altas apareceram em força e logo os corpinhos saíram da “toca protetora das roupas de inverno,” e, mais o sexo feminino, logo começaram a destapar o corpo e a usarem roupinha o mais curta possível, destapando as costas, as pernas e braços e o peito. Nas praias, o “fio dental” já há muito que o tamanho é reduzidíssimo, sendo difícil cortar mais no tecido! Assusta-me ver os corpos com vermelhões, também nos turistas, muitos deles de peles muitos mais claras do que nós – povos do sul da Europa, e que cometem os mesmos erros. Será que não sabem nem ninguém os alerta, nos aeroportos, distribuindo folhetos alertando-os para o efeito perigoso do excesso de exposição solar? Já vi “lagostas” – estrangeiras, mas não só, nas praias e na cidade.

Todos os anos, surgem alguns milhares de novos casos de cancro da pele, dos quais cerca de 20 % serão melanomas. Este é um tipo de cancro maligno, cuja incidência tem vindo a aumentar de forma rápida e consistente ao longo das últimas quatro décadas. As autoridades de saúde fazem muitas campanhas, mas a desinformação em torno de temas como a proteção solar continua a espalhar-se amplamente, comprometendo, por vezes, a confiança em estratégias de prevenção comprovadas.

Existe, desde há muitos anos, o culto do bronzeado: “Quanto mais queimado, melhor”- dizem inconscientemente. Depois, mais tarde, correrão para os Serviços de Dermatologia, mas, às vezes, já é tarde de mais – as queimaduras solares, com bolhas na pele podem demorar mais de 30 anos até se revelarem em cancro da pele. Se os incautos se dessem ao cuidado de ver as fotografias que os médicos tiram aos seus pacientes – para matéria de estudo, ficariam horrorizados, tal como as imagens nas embalagens dos cigarros, sobre o cancro do pulomão, provocado pelo tabaco. Estas não desincentivam ao consumo, tal como as campanhas sobre oss perigos da exposição ao sol, acabam por ter algum insucesso. Desde muito cedo que fui cuidadoso, comigo e com os meus filhos, embora, num país de praias e de elevada exposição solar como é o nosso, agora mais maléfico por causa das alterações climatéricas, o cuidado tem de ser maior – porque com a moda de uso de “roupa curta”, mesmo no quotidiano citadino, o corpo fica mais exposto ao efeito nefasto dos raios solares. Dizia eu que há mais duma década, surgiu-me, no peito, um pequeno sinal e que a minha médica dermatologista mandou extrair. Era benigno, mas ela alertou-me para os cuidados a ter e estar atento aos sinais do corpo.

Há cerca de cinco anos, passei a ser um “cliente “em Dermatologia no maior hospital do país, não por causa de qualquer cancro da pele ou melanoma, mas sim por problemas na pele provocadas pelo sangue – a doença chamada Psoríase. Por isso, durante quase 50 dias úteis, deslocava-me ali para um tratamento novo – fototerapia, e que fez com que o meu corpo deixasse de ter o aspeto duma lagosta. Sucederam-se consultas de vigilância e nestes dias de calor da última semana de maio, voltei lá e o médico assistente, face ao alastrar das feridas no corpo, prescreveu-me novamente o tratamento por fototerapia – na psoríase, além da medicação e cremes farmacológicos e, se possível, apanhar o “bom sol” que é muito importante para este mal. Quero com isto dizer que já me desloquei ao serviço de dermatologia algumas dezenas de vezes nestes últimos cinco anos, pelo que pude observar não só o número de pessoas que ali recorrem, mas também algumas delas com situações, aquelas que são visíveis, preocupantes. E as idades são variadas, mesmo crianças. Mau sinal, diria eu, mas, pelo que observamos, não apenas nas praias, não deveremos ficar surpreendidos com a incidência dos vários tipos de cancros da pele.  É muito difícil ser “rigoroso e cumpridor”, até porque os protetores solares sempre tiveram preços de venda pouco compatíveis com o poder de compra de muitos portugueses, mas entre cortar numas cervejas ou em gelados, os amantes do sol preferem cortar nos protetores que lhes evitaria não só as dores das queimaduras, mas também as consequências futuras. Dizem, santa ignorância, que “bronzeia mais depressa”. Saiba que também se expõe aos raios ultravioleta (UV) não só quando apanha sol na praia, mas também na vida quotidiana, praticando desporto ao ar livre – ou simplesmente caminhando ao sol, em trabalhos a céu aberto (construção civil, pescadores, etc.).  “Ouvidos de mercador”, era e é o que milhares de portugueses têm feito nesta matéria e, mais ainda, continuam a cometer autênticos crimes, pois não só deixam de cuidar de si, mas também das crianças e jovens à sua guarda. Basta passar por uma qualquer praia na “hora proibida” para verificar que é nesse período (das 12 às 16 horas) que se atinge o pico da frequência e ali encontramos crianças de todas as idades. Segundo os especialistas, o “relógio solar” pode classificar-se em:  das 12 às 16 horas, consideradas horas solares perigosas, às 11 e 12 e 16 e 17, perigo intermédio; nas restantes, considera-se horário apropriado de exposição solar, aquele que tem outro impacto e benefício. Surpreende, assim e já que os próprios pais não se preocupam com os efeitos maléficos da exposição solar sobre os seus filhos, em horas perigosas, que as autoridades de saúde apenas se limitem a campanha que para muita gente: “entram por um ouvido e saem pelo outro”. Afinal, os direitos das crianças também deveriam incluir esta matéria, tal como a proteção contra o tabaco, porque estes erros terão nefastas consequências na sua saúde, presente e futura. A nossa pele não serve apenas para exibir o bronzeado e para as bizarrias das tatuagens (será que protegem do sol, tal é a área do corpo tatuado?). Ela protege-nos do calor, da luz, etc e ajuda a controlar a temperatura do nosso corpo. Através da pele também o nosso corpo recebe o impute para produzir a vitamina D, deveras importante para a nossa saúde – esta pode ser produzida no nosso organismo através do contacto dos raios solares sobre a pele, desde que “raios bons”.

Como é natural, com a idade e a própria genética, vão surgindo sinais no nosso corpo, pelo que convém que estejamos atentos ao seu aparecimento e evolução, vigiando os seus contornos (forma), a cor e o tamanho desses sinais, novos ou velhos, pois a sua alteração é um alerta, que quando identificado a tempo, pode salvar vidas e evitar males maiores. “Se tem pele clara, se já sofreu queimaduras na infância e adolescência, se costuma passar muito tempo ao sol, se tem uma pele com muitos sinais, ou antecedentes na família com casos de cancro da pele, não ignore e lembre-se que o sol não faz apenas bem – também faz mal”.

Nos últimos anos, o número de novos casos de melanoma triplicou- é a versão mais agressiva e mortal dos cancros. Vagas de calor brutal – a temperatura média mundial não para de subir, e o cancro de pele tem uma incidência muito alta em todo o país e está a crescer a 6% ao ano. Um pouco crentes no impacto nas pessoas e, principalmente, nos educadores, os médicos deixam alertas: “é urgente criar novos hábitos de exposição solar nas crianças para que esses comportamentos se perpetuem ao longo da vida”. As escolas e afins ensinam as crianças, mas, com os progenitores, esquecem-se das recomendações, porque os “mestres-casa” são péssimos a dar o exemplo. Infelizmente passa-se o mesmo, por exemplo, na reciclagem – cujas campanhas, bem provocadoras, pouco impacto teriam tido nas pessoas. O nosso país e o Mundo tem sido fustigado por episódios violentos da natureza – tempestades, fogos, vagas de calor, e com tendência a piorarem – afectando a qualidade de vida no nosso habitat. Os efeitos do calor e do sol tenderão a fazer cada vez mais vítimas, não apenas nos idosos, onde me incluo. Qual é o nosso papel?

Protegermo-nos do “mau sol” é algo fácil, desde que nos deixemos de vaidades e da obsessão em atingir a cor que não é a nossa cor natural, deixando de proteger o nosso corpo (para mudar a cor da pele usam-se as tatuagens, por exemplo). Ademais, o sofrimento é bem maior do que um corpinho bem bronzeado. Há práticas preventivas que podemos implementar nas nossas vidas, tendo em conta as patologias graves. É o caso de alguns cancros, do tabaco, da sinistralidade rodoviária e outras que acabam por ter impacto, globalmente, no SNS, mas mais do que isso, no sofrimento e na perda da (qualidade) de vida. Vale a pena pensarmos nisso.

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