O escritor timorense Luís Cardoso, homenageado da 19.ª edição da Escritaria, ficou eternizado em Penafiel com uma frase da sua autoria gravada numa peça escultórica de pedra instalada no bosque do Jardim do Sameiro. A inscrição, acompanhada pela silhueta do autor e por uma figueira de figos carica escolhida pelo próprio para assinalar a sua passagem pelo festival, perpetua a mensagem: “Cada um faz o seu próprio destino e talha a pedra que o perdura no tempo”.
A cerimónia desta sexta-feira marcou um dos momentos mais simbólicos da edição deste ano do festival literário, que presta homenagem ao romancista timorense e à sua obra, marcada pelos temas da memória, da resistência, da identidade e da construção de Timor-Leste.
Para o presidente da Câmara Municipal de Penafiel, Pedro Cepeda, esta é uma edição particularmente especial, não apenas pela projeção internacional do evento, mas também pela oportunidade de aproximar os penafidelenses de um dos mais destacados autores da lusofonia contemporânea. “A Escritaria é sempre especial e é um momento especial para Penafiel. Este ano, pela circunstância de irmos até ao Extremo Oriente, de nos lembrar que também no continente asiático há quem fale português, há quem sinta a língua de Camões”, afirmou.
O autarca destacou ainda a dimensão humana do escritor. “Conseguimos perceber melhor a sua obra, conseguimos perceber a dedicação e a profundidade que ele coloca nos seus textos”, sublinhou, acrescentando que esta está a ser uma edição “verdadeiramente especial”.
Este é também o primeiro ano em que a organização da Escritaria é assumida integralmente pela Câmara Municipal de Penafiel. Pedro Cepeda considera que a aposta na mobilização da comunidade, das escolas, das instituições sociais e de diferentes expressões artísticas está a revelar-se um sucesso. “Temos um programa extraordinário, que envolve ainda mais a comunidade, os alunos, as crianças, os idosos e as IPSS. Está a ser uma experiência fantástica e dá-nos coragem para continuar e ambição para levar Penafiel ainda mais longe”, afirmou.
O presidente da autarquia reforçou igualmente a dimensão internacional do festival e manifestou a intenção de aprofundar os laços com Timor-Leste. Recordando uma visita ao país há cerca de 12 anos, garantiu que Penafiel continuará a contribuir para a valorização da língua portuguesa naquele território. “Luís pode contar connosco para que a nossa língua continue a estar viva em Timor. Será um contributo pequeno, mas será o nosso contributo”, disse.
“Perante a grandeza de tudo o que estou a encontrar aqui em Penafiel, sinto-me cada vez mais pequenino”
Visivelmente emocionado, Luís Cardoso confessou sentir-se esmagado pela dimensão da homenagem que lhe está a ser prestada. “Perante a grandeza de tudo o que estou a encontrar aqui em Penafiel, sinto-me cada vez mais pequenino”, afirmou. O escritor revelou que ficou surpreendido quando recebeu o convite para participar na Escritaria, lembrando os nomes ilustres que já passaram pelo festival. “Quem sou eu?”, questionou, admitindo estar a viver os dias em Penafiel com “o coração a tremer” face à intensidade das manifestações de carinho que tem recebido.
Ao longo da semana, o autor visitou escolas do concelho e contactou com centenas de alunos que leram e trabalharam os seus livros. Uma experiência que descreveu como particularmente marcante. “Para um escritor vir e encontrar a sua obra a ser lida é uma coisa fabulosa”, afirmou.
Luís Cardoso aproveitou ainda para destacar a importância da cooperação entre Penafiel e o município timorense de Lautém, defendendo que o fortalecimento do poder autárquico é essencial para o desenvolvimento de Timor-Leste.
Sobre a frase agora gravada na pedra do Jardim do Sameiro, o escritor reconheceu que a homenagem simboliza a capacidade da literatura de deixar uma marca duradoura. “Quando escrevemos e vemos a nossa obra ser reconhecida é uma coisa fabulosa. Todo o escritor pensa e anseia por isso”, referiu.
O homenageado destacou ainda aquilo que considera ser uma das maiores virtudes da Escritaria: celebrar os autores em vida. “Normalmente nós só homenageamos os escritores quando estão mortos, ou quando fazem 100 anos. A Escritaria faz precisamente isso: celebra os autores enquanto ainda estão vivos, e isso é uma coisa fabulosa”, concluiu.
