Sim, passou mais um dia de celebração da data que marcou o início da nossa conquista da liberdade mas, para muitos, é bom lembrar o que antes aconteceu, por contraste ao que se vive, hoje…
Parece-me que muitos já entenderam o que nos trouxe a revolução de Abril mas, porque a liberdade não é só o que cada um de nós herdou dessa data, é bom que continuemos a sentir e a viver o que é possível renovar em cada dia que passa… Bem sabemos que não chega gozar a liberdade que ganhamos e é forçoso aprender para depois saber como ela chegou e, também por isso, é bom saber como renovar essa conquista… Isso aprende-se com o testemunho dos mais velhos, com o debate, mais ou menos vivo sobre o que antes se passou, com a reflexão que é para avivar em cada ano que passa…
Não, não estou satisfeita com o que se vai fazendo por aqui em cada dia de celebração da data que todos repetem, com mais ou menos ânimo, mas onde falha muita verdade, muita história, muita expereiência!
Não, hoje, tanto à esquerda como à direita, crescem os riscos associados às ideias partidárias e os desafios são cada vez maiores… Hoje, muito do que se vê acontecer, é um reflexo do cansaço das pessoas, da indiferença dos jovens e isso significa que não estamos nada bem. A percepção da corrupção teima em não diminuir, a sociedade civil é cada vez menos participativa mesmo que todos saibamos que a liberdade conquistada não desaparece de um dia para o outro… Desgasta-se quando deixamos de a questionar, quando, erradamente,a tomamos por adquirida…
Mais de 50 anos passados, os cravos já não um gesto ou memória viva, afinal, parece-me, o que se faz, o que se guarda é quase só um símbolo do que foi e do que hoje passou a ser… Canta-se porque a liberdade ainda se defende e isso ainda ajuda na sua renovação… Isso não significa que haja liberdade garantida, sobretudo porque, a liberdade precisa de cidadãos atentos, experimentados, que a expliquem, que a saibam defender pela coragem, com dados concretos, com actos vividos, que deveriam servir para provar o que cada um, os mais velhos sobretudo, corajosamente fizeram para que cada jovem, hoje, possa perceber e seguir…
Não chega a festa com foguetes e tambores, os discursos mais ou menos elaborados ou a reacção palerma de um deputado novato que vira as costas que vira as costas a um discurso que não lhe apetece ouvir, ou a cor dos cravos mais ou menos conveniente conforme o gosto de cada um… O que conta mesmo, é que cada Abril seja celebrado como uma Escola que eduque realmente, para que cada jovem ou mesmo cada adulto, possa perceber o que é a Liberdade… Ou o seu contrário…
Há muitos anos, em Abril de 69, em Coimbra, os estudantes ousaram “pedir a palavra”, denunciando a ditadura… Fizeram greve aos exames e eu estive lá! Há muitos anos, exigiram-me o silêncio, quiseram obrigar-me a vestir uma farda que rejeitei, tentaram que dissesse sim a uma doutrina que nunca aceitei e, porque a educação sempre conduz à liberdade, com os meus pais, ousei procurar a Liberdade… Quantos se lembram disso? Este breve apontamento ajuda a provar a necessidade de ajudar os mais novos a perceber o que foi a ditadura e o que é a liberdade… Que não se ganha por sorteio e não se prova com cravos vermelhos na lapela… Que não é só essa festa que se repete em cada ano… Que não são os discursos mais ou menos pomposos dos políticos do tempo actual… A liberdade precisa de cidadãos atentos e experientes, cidadãos que saibam o que é, o que foi lutar com coragem para que cada um possa repetir, eu sou livre!…

