A contemporaneidade é marcada pela era do briefing e da governação por “pontos de situação”. Quando se observa o atual o palco político, a sensação de esgotamento não deriva apenas dos escândalos que se sucedem, mas de uma esterilidade mais profunda: a constatação de que as nossas democracias estão a ser geridas por administradores do imediato. A crise de liderança que enfrentamos não é meramente uma crise de valores; é, antes de tudo, uma crise de profundidade.
Há mais de dois milénios, uma frustração quase idêntica foi registada num dos textos mais fascinantes e melancólicos da antiguidade: a Carta VII de Platão. Esquecemos frequentemente o homem por trás do mito. Já maduro, Platão viajou até Siracusa (na atual Sicília) com a esperança de orientar o jovem tirano Dionísio II. O projeto fracassou de forma espetacular. E porquê? Não porque Dionísio fosse um monstro sanguinário, mas porque era insuportavelmente superficial.
Dionísio ouviu Platão durante uns dias e, pouco tempo depois, publicou um “manual” de filosofia, apresentando como suas as ideias que mal compreendera. O jovem governante queria o verniz do prestígio intelectual, a ilusão da competência, mas recusava a exigência morosa, a fricção e a angústia que o verdadeiro pensamento exige.
Este é o exato diagnóstico da política contemporânea. Os nossos líderes sofrem da “Síndrome de Siracusa”. Estão rodeados de assessores, consultores, painéis de métricas e resumos executivos. Acreditam, como Dionísio, que ler os tópicos num memorando é equivalente a compreender a espessura da realidade social. Confundem a gestão de crises diárias com a visão de Estado, e a narrativa mediática com a ação política.
Na Carta VII, Platão deixa um aviso que deveria ecoar em todos os parlamentos: o verdadeiro conhecimento não se transmite através de manuais ou fórmulas rápidas. Ele só nasce de uma longa convivência com os problemas, do atrito partilhado com a realidade, surgindo na alma “como a luz que se acende de uma centelha que salta”.
Hoje, a política rejeita a “centelha” em favor do ecrã do teleponto. O tempo do pensamento foi devorado pelo tempo da comunicação. O resultado são líderes que não governam, apenas reagem. Quando a política é reduzida à eficiência tecnocrática e ao cálculo de danos, perde a sua substância. As decisões tornam-se fórmulas estéreis, incapazes de lidar com problemas estruturais — da crise climática à desagregação do tecido social —, porque quem decide está apenas a ler o resumo da obra, sem nunca ter compreendido a sua complexidade.
O desabafo célebre de Platão de que as coisas não melhorariam até que os filósofos chegassem ao poder foi, muitas vezes, mal interpretado. Ele não pedia que académicos tomassem de assalto os governos. Ele exigia um tipo de líder que resistisse à sedução da superficialidade.
A verdadeira renovação das nossas instituições não começa com novas leis ou com as habituais promessas de transparência. Começa com a rejeição desta governação de fachada. Precisamos desesperadamente de lideranças que tenham a coragem de suportar o tempo lento e difícil da realidade, em vez de se contentarem em ser, como Dionísio, meros leitores de resumos num mundo que arde.
