No calendário da música ocidental existem obras grandes, e depois existem aquelas que parecem conter um universo inteiro. Para mim, poucas atingem essa dimensão como as duas grandes Paixões de Johann Sebastian Bach: a Paixão segundo São João e a Paixão segundo São Mateus. Ao longo dos anos, voltei inúmeras vezes a estas obras, especialmente nesta época da Páscoa, e cada escuta parece revelar algo novo: uma emoção inesperada, uma frase musical que se ilumina de forma diferente, um silêncio que ganha outro peso.
A Paixão segundo São João, apresentada em Leipzig em 1724, tem para mim uma força dramática quase irresistível. Desde os primeiros compassos, a música instala uma tensão intensa que nos conduz pela prisão, julgamento e crucificação de Cristo. Os coros da multidão surgem com uma energia quase brutal, enquanto as árias interrompem o fluxo da narrativa para momentos de profunda introspeção. É uma obra direta, inquietante, que nos confronta com a dimensão humana do drama.
Já a Paixão segundo São Mateus oferece uma experiência diferente, talvez ainda mais vasta. Escrita para dois coros e duas orquestras, cria uma arquitetura sonora de uma beleza impressionante. Aqui, o drama parece expandir-se e transformar-se em contemplação. As árias convidam-nos a parar, a refletir, a escutar com mais profundidade. Cada coral soa como uma voz coletiva que atravessa os séculos.
Ao regressar a estas obras, sinto sempre que não estou apenas a ouvir música. Há nelas algo de profundamente humano: falam de sofrimento, de injustiça, de compaixão e de esperança. Talvez seja por isso que continuam a tocar quem as escuta, mesmo muito para além do contexto religioso em que nasceram.
Curiosamente, estas obras ficaram quase esquecidas após a morte de Bach. Só no século XIX voltariam a ganhar vida, quando Felix Mendelssohn dirigiu a redescoberta da Paixão segundo São Mateus, revelando ao público moderno a dimensão extraordinária deste legado.
Três séculos depois, as Paixões de Bach continuam a ser muito mais do que páginas da história da música. Para mim, são um lugar de encontro entre arte, espiritualidade e emoção humana. E talvez seja precisamente por isso que, quando a música termina, o silêncio que fica parece sempre mais profundo.
