Portugal viveu, durante décadas, sob o mito reconfortante dos “brandos costumes”. Acreditávamos, com uma certa arrogância provinciana, que a radicalização política era um fenómeno exótico, reservado a países instáveis ou a potências distantes. Por cá, o “centrão” era uma lei da gravidade: tudo o que subia ou descia acabava, inevitavelmente, por convergir para o meio. A política era aborrecida, e nós agradecíamos.
Contudo, as recentes movimentações eleitorais demonstram que esse tempo acabou. E não acabou devido a uma súbita conversão ideológica das massas, mas devido a um fator que os analistas muitas vezes desprezam: o tédio e a exaustão.
A moderação, que outrora era vista como um sinal de sabedoria e estabilidade, passou a ser percecionada como paralisia. O eleitor olha para a gestão tecnocrática dos últimos anos — a linguagem cifrada dos economistas, a prudência dos burocratas, o adiar constante das decisões difíceis — e já não vê segurança. Vê impotência. O “homem prudente” tornou-se no “homem que não faz nada”.
É neste vácuo que surge o apelo das figuras que gritam. Filosoficamente, o que estamos a assistir é à substituição da “política da gestão” pela “política do ato”. Quem vota nas franjas do sistema, ou nas novas figuras populistas, não está necessariamente à procura de um programa de governo coerente. O que o eleitor procura é energia.
Há uma impaciência vital que se apoderou da sociedade. As pessoas cansaram-se de ver o equilibrista a caminhar devagar na corda bamba, sempre com medo de cair. Agora, há uma tentação crescente de aplaudir quem promete saltar, correr, ou até cortar a corda, mesmo que isso signifique o risco de uma queda coletiva. O voto no grito é a vingança de quem sente que a sua vida está estagnada. É uma forma de dizer: “Prefiro o risco do desconhecido à monotonia da vossa ineficácia”.
Para os defensores da democracia liberal, este é o momento mais desafiante. Não adianta diabolizar quem vota no caos, nem tratar os eleitores como crianças enganadas. É preciso perceber que a “sensatez” só é uma virtude política quando produz resultados. Quando a sensatez produz apenas estagnação, a rutura começa a parecer uma alternativa racional.
Portugal deixou de ser o reduto inabalável dos brandos costumes para se tornar no palco de um duelo incerto. De um lado, a velha ordem que tenta sobreviver; do outro, uma impaciência que cresce a olhos vistos. O desfecho desta luta ainda não está escrito nas urnas, mas uma coisa é certa: a tranquilidade automática a que nos habituámos já faz parte do passado.

