Durante décadas, a esquerda compreendeu uma verdade essencial: quem ocupa a rua ocupa o debate político. A manifestação não era apenas protesto: era presença física, demonstração de força, criação de comunidade, imposição simbólica. A rua era um palco político porque obrigava o poder a ver rostos, mãos erguidas e palavras de ordem, multidões dominavam a rua e desafiavam a ordem. Hoje, porém, as ruas estão vazias. E esse vazio não é neutro. Foi ocupado.
A extrema-direita percebeu antes de todos que a nova praça pública já não é a avenida, mas o feed. A antiga “luta de massas” transformou-se em guerra algorítmica. O militante deu lugar ao utilizador hiperativo; o panfleto foi substituído pelo meme; o comício pela indignação viral. Quem domina o fluxo digital controla o ritmo emocional da sociedade.
A esquerda tradicional continua muitas vezes presa à liturgia do século XX: sindicatos, estruturas, linguagem académica, debates internos intermináveis. Enquanto isso, a extrema-direita comunica com velocidade, emoção e conflito. Não quer convencer racionalmente; quer ocupar atenção. E nas redes sociais, quem gera choque ganha alcance. O algoritmo recompensa o ressentimento, simplifica o discurso e amplifica a raiva. Estudos mostram até que conteúdos da direita tendem a beneficiar mais da amplificação algorítmica do que os da esquerda.
Há aqui uma ironia brutal: a esquerda, que sempre acreditou no poder da mobilização popular, perdeu terreno precisamente no espaço onde hoje se formam as massas. Porque as massas contemporâneas já não marcham juntas: sincronizam-se digitalmente. A política deixou de depender da proximidade física e passou a depender da omnipresença emocional.
Mas há também uma responsabilidade política profunda. Parte da esquerda institucionalizou-se. Entrou nas universidades, nas redações, nas instituições, nos gabinetes ministeriais. Tornou-se frequentemente mais moralizadora do que mobilizadora. Falou para os seus pares enquanto a extrema-direita falava para os frustrados, os invisíveis e os ressentidos do regime. Quando a política abandona os problemas da vida real, o populismo ocupa o espaço vazio com narrativas simples e inimigos imaginados.
A extrema-direita compreendeu outra coisa decisiva: a internet não é um espaço de debate; é um espaço de performance. Não interessa apenas ter razão: interessa dominar emocionalmente o ambiente. Por isso transforma tudo em combate cultural permanente. Cada tema vira guerra identitária. Cada crise vira combustível. Cada indignação vira recrutamento.
As redes sociais não criaram a extrema-direita, mas deram-lhe aquilo que as ruas davam aos movimentos revolucionários do passado: velocidade, visibilidade e sensação de pertença ao grupo.
O problema é que a democracia continua organizada para um mundo analógico, enquanto a radicalização já opera num mundo digital. O debate político tornou-se instantâneo, tribal e emocional. A reflexão perdeu espaço para a reação. A complexidade tornou-se um defeito de comunicação.
A rua não desapareceu. Apenas mudou de forma. Hoje, uma hashtag pode mobilizar mais do que uma manifestação. Um vídeo de 30 segundos pode influenciar mais do que um manifesto político. E enquanto muitos ainda discutem ideologias, outros já controlam o algoritmo digital. E quem dominar os feeds das redes sociais, dominará a agenda política do século XXI.

