Vi o artigo do Imediato sobre o ranking das escolas, olhei para o rio Ferreira e fiquei a pensar: estes resultados revelam muito mais do que a simples qualidade do ensino.
Todos os anos, quando surgem os rankings, a discussão pública centra-se quase exclusivamente nas escolas, nos professores ou nos métodos pedagógicos. Contudo, no meu entendimento, estas “pautas” também revelam algo profundo sobre as famílias e sobre a forma como cada comunidade encara o ato de educar e as funções da Escola.
Costuma dizer-se que os melhores resultados pertencem, invariavelmente, aos territórios mais ricos. Mas… essa explicação parece-me manifestamente insuficiente.
No concelho de Paços de Ferreira, segundo os dados oficiais, apenas 19,1% dos alunos frequentam o ensino privado. No concelho do Porto, essa percentagem ultrapassa os 50%. Ora… apesar desta disparidade, um colégio Nova Encosta surge habitualmente entre os melhores do país.
A questão fulcral, portanto, não deve ser colocada propriamente na diferença económica entre ricos e pobres, mas sim entre duas formas marcadamente distintas de olhar para a Escola e para a Educação.
A Escola como Escada
Há famílias para quem a Educação continua a ser a principal estratégia de ascensão social. Para estas, a Escola é uma escada.
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Cada classificação pode abrir uma porta determinante;
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Cada décima pode fazer a diferença entre entrar ou ficar de fora;
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A escolha de uma escola, de um curso ou de uma universidade faz parte de um projeto familiar coletivo que procura ampliar oportunidades e alcançar aquilo que as gerações anteriores não conseguiram atingir.
A Escola como Janela
Por outro lado, existem famílias para quem a Educação é, sobretudo, uma forma de realização pessoal. A Escola deixa de ser vista como uma escada e passa a ser uma janela aberta.
O objetivo principal deixa de ser o de subir mais um degrau na estrutura social, passando a focar-se no desenvolvimento de capacidades, no aprofundamento de interesses, no seguir de uma vocação e no “voar para além dos penhascos”. A utilidade prática do canudo continua a ter importância, mas deixa de ser a única régua para medir o valor de um percurso académico.
Talvez esta dualidade ajude a compreender algumas das escolhas dos nossos jovens. Os cursos artísticos e a área das Humanidades — onde disciplinas como o Português, a História, a Filosofia, a EMRC ou o Latim, e o Grego, cultivam o pensamento crítico e a interioridade em vez do lucro imediato — continuam a ser procurados por uma minoria. Não porque as Artes ou Humanidades tenham menos valor em si mesmas, mas porque muitas famílias continuam, legitimamente, a olhar para a Escola e para Universidade sobretudo como um instrumento pragmático de construção de futuro económico.
Os rankings, afinal, não medem apenas exames; medem a cultura, as aspirações e a alma das comunidades que habitam as nascentes e as margens do nosso rio Ferreira.
O sucesso do Colégio Nova Encosta revela uma característica profunda das gentes de Paços de Ferreira: somos um território de enguias. Gostamos de subir. Gostamos de vencer a corrente. Gostamos de chegar mais longe do que os nossos pais chegaram.
O problema começa quando a vida se reduz à subida. Há mais sabedoria numa enguia que chega ao mar do que num homem que passa a vida inteira a subir sem saber para quê, nem para onde.
Porque a Escola pode ser uma escada. Mas, quando deixa de ser também uma janela, corre o risco de nos ensinar a subir sem nos ensinar a ver.
Ricardo Pereira

